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Carvalho-europeu

EU SOU o carvalho-europeu, e minha presença em Nova Petrópolis, Jardim da Serra Gaúcha e Cidade Educadora, carrega a força do tempo. Vim de terras da Europa e de partes da Ásia, trazido por imigrantes que desejavam manter viva a paisagem e o vínculo com a terra natal.

Meu nome guarda um significado antigo: “carvalho” vem do termo celta duir, que quer dizer “porta”. Para esses povos, eu era um portal entre mundos, uma árvore sagrada, símbolo de sabedoria e conexão com a natureza.

Cresço devagar, mas com presença. Posso alcançar grandes alturas e viver por muitos séculos, atravessando gerações. Minhas folhas têm bordas recortadas em formas suaves e, no outono, mudam de cor antes de cair, ensinando sobre os ciclos da vida. Na primavera, minhas pequenas flores surgem discretas e depois dão lugar às bolotas, sementes que carregam em si a possibilidade de novos começos.

Minha madeira sempre foi muito valorizada, utilizada na construção, na produção de móveis e até na fabricação de barris para o envelhecimento de vinhos. Também estive presente na arquitetura enxaimel, tão marcante na cultura local.

Mas, mais do que tudo isso, sou memória viva. Dizem que minhas sementes vieram no bolso dos imigrantes boêmios, atravessando oceanos como pequenos tesouros. Em mim, vivem histórias de saudade e coragem.

Aqui em Nova Petrópolis, não sou apenas uma árvore. Sou a raiz da história. Sou um elo entre continentes, entre passado e presente, lembrando que cultivar a memória também é uma forma de cuidar do futuro.

CONTEXTO BIOCULTURAL

Para Nova Petrópolis, o carvalho torna-se uma conexão importante com a velha pátria. Tem como função de memória social ressaltar um vínculo afetivo com a antiga terra a que os ancestrais de boa parte dos moradores pertenceram. Vindo da Europa, ou de regiões frias do norte, como outros espécimes, ele reforça uma romantização das terras que hoje já não são mais as das famílias que aqui vivem. O carvalho possui um apreço popular e torna-se carinhosamente recebido.

Pensando na Praça da República, tínhamos um grande carvalho que encravava suas raízes no centro dela. Segundo o respeitado professor Renato Urbano Seibt (in memoriam), a árvore permaneceu por muitos anos resistindo às interferências humanas até que, muito fraca, caiu pela força de um grande vendaval.

Foi em 1922 que, pelas comemorações do centenário da Independência do Brasil, foi plantada uma muda de carvalho pelas pequenas mãos dos alunos de Elisabeth Pirtouscheg, mãe de Renato. Elisabeth foi a primeira professora contratada pelo Estado a lecionar em Nova Petrópolis, uma pessoa muito importante para a comunidade, pois, no período, enfrentou sérios preconceitos sendo uma mulher exercendo essa função. Infelizmente, removida às pressas para a cerimônia, a pequena muda não resistiu nos dias seguintes e foi substituída por uma nova, plantada e cuidada por Wilhelm Hoffstaetter. Mas a atitude de plantar aquela muda carregava um ato simbólico: ela marcava o local onde seria construída a Praça da República, sendo a protagonista deste espaço em que você está e que tinha uma cara totalmente diferente naquela época.

Por muitos anos aquele carvalho permaneceu, por volta de 80, como Renato comentava. E embaixo de sua sombra recebeu diversas pessoas, sejam elas do município, caravanas de ciganos que costumavam ficar ali quando nos visitavam, turistas e a construção da própria Praça da República.

A presença dos carvalhos em Nova Petrópolis não termina por aí, pois o professor “Renatão” comenta que: marcavam paisagens de comunidades como de Linha Brasil; estavam ao lado do Moinho Rasche, no Bairro Piá; formavam uma floresta perto da venda do Sr. Henrique Zang aqui no centro da cidade; suas sementes foram secretamente trazidas nos bolsos dos imigrantes boêmios, que as plantaram em seu primeiro acampamento, na Linha Araripe, onde passava a estrada percorrida pelos tropeiros. A coitada da árvore acabou insensivelmente derrubada com a construção da RS-235.

FICHA BOTÂNICA

Espécie:

Quercus robur L.

Gênero:

Quercus

Família:

Fagaceae

Origem:

Europa/Ásia

Altura:

20 - 45 m

Folhas:

Folhas simples, alternas, ovalado-alongadas, estreitadas na base e alargadas no ápice, de textura firme, com 3-7 (lobos) arredondados e 2 lobos pequenos. Verdes-escuras na face de cima e verde-azuladas na de baixo. De 5-12cm de comprimento, com pecíolo curto.

Características das folhas:

Caducifólia

Floração:

Primavera

Frutificação:

Verão/Outono

Dispersão de sementes:

Zoocoria (Mastocoria/Ornitocoria)

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA DA SILVA, R. Estudos taxonómicos no género Quercus L.. Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Porto. 1989.

GOMES, Ligian Cristiano; BEZZI, Meri Lourdes . As marcas culturais mediadas pela arquitetura alemã na paisagem do município de Picada Café/RS. In: Luciane Rodrigues de Bitencourt; Ligian Cristiano Gomes; Mateus Pessetti. (Org.). Dinâmicas espaciais: olhares sobre o agrário, o urbano e o cultural. 1ed.São Leopoldo: Oikos, 2020, v. , p. 220-235.

PETERS, Silvio Silmar. A escola como lugar de memória, identidade e múltiplas narrativas sobre a paisagem da Linha Temerária, Nova Petrópolis/RS. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. 2020.

SEIBT, Renato U. Jun.1992 - 2ª Quinzena._____. Abr.1997 – 1ª Quinzena.

SUPORTE_LIFT. Conheça o carvalho-alvarinho, uma árvore típica dos climas temperados. Disponível em: . Acesso em: 12 dez. 2025.

WEIMER, Günter. A arquitetura da imigração alemã: um estudo sobre a adaptação da arquitetura centro-européia ao meio rural do Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 1983.

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